sábado, 20 de outubro de 2007

António Jacinto "Carta de um Contratado"

António Jacinto do Amaral Martins, poeta angolano, ganhou reconhecimento através de sua poesia de protesto. Devido à sua militância política anti-colonialista e de base marxista, foi exilado no Campo de Concentração de Tarrafal, em Cabo Verde, no período de 1960 a 1972. Voltou para Angola em 1973, e se juntou ao MPLA [Movimento Popular de Libertação da Angola]. Com a independência do país frente à colonização portuguesa em 1975, foi nomeado Ministro da Educação e Cultura, cargo que ocupou até o ano de 1978.
O poema abaixo, um dos mais expressivos de sua obra (e quiçá de toda a literatura angolana), foi-me apresentado por um grande amigo, outro apaixonado pelas literaturas africanas, que também escreveu um belo trabalho sobre o aparente paradoxo desses versos. Lê e vais entender qual é.

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António Jacinto (1924-1991); Angola.
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Carta de um Contratado

Eu queria escrever-te uma carta
amor
uma carta que dissesse
deste anseio
de te ver
deste receio de te perder
deste mais que bem querer que sinto
deste mal indefinido que me persegue
desta saudade a que vivo todo entregue...

Eu queria escrever-te uma cara
amor
uma carta de confidências íntimas
uma carta de lembranças de ti
de ti
dos teus lábios vermelhos como tacula
dos teus cabelos negros como dilôa
dos teus olhos doces como macongue
dos teus seios duros como maboque
do teu andar de onça
e dos teus carinhos
que maiores não encontrei por aí...

Eu queria escrever-te uma carta
amor
que recordasse nossos dias na capôpa
nossas noites perdidas no capim
que recordasse a sombra que nos caía dos jambos
o luar que se coava das palmeiras sem fim
que recordasse a loucura
da nossa paixão
e a amargura nossa separação...

Eu queria escrever-te uma carta
amor
que a não lesses sem suspirar
que a escondesses de papai Bombo
que a sonegasses a mamãe Kieza
que a relesses sem a frieza
do esquecimento
uma carta que em todo Kilombo
outra a ela não tivesse merecimento...

Eu queria escrever-te uma carta
amor
uma carta que te levasse o vento que passa
uma carta que os cajus e cafeeiros
que as hienas e palancas
que os jacarés e bagres
pudessem entender
para que se o vento a perdesse no caminho
os bichos e plantas
compadecidos de nosso pungente sofrer
de canto em canto
de lamento em lamento
de farfalhar em farfalhar
te levasse puras e quentes
as palavras ardentes
as palavras magoadas da minha carta
que eu queria escrever-te amor...

Eu queria escrever-te uma carta...
Mas ah meu amor, eu não sei compreender
por que é, por que é, por que é, meu bem
que tu não sabes ler
e eu - Oh! Desespero - não sei escrever também!

4 comentários:

Anna disse...

Que ´´´coisa´´ mais linda! Amei! Eu não sei escrever!

Cristina disse...

Conheci a poesia no curso do Museu AfroBrasil, encantei-me e hoje procuro tudo sobre esse grande poeta, já trabalhei com essa poesia na minha escola, foi ótimo.

Cristina disse...

Adorei a poesia quando ouvi num cruso do museu AfroBrasil. Já trabalhei com ela na minha escola e foi muito bom. Demais

Onélio Santiago disse...

Todos os dias, antes de dormir, eu leio este poema... é o melhor dos poemas que eu já li