segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Elean Thomas "Canção de amor de uma negra"

Dia desses eu tava conferindo a minha comunidade Poesia Africana no Orkut e uma moça perguntou sobre um certo poema que ela havia lido em um livro chamado Alfabetização cultural, que foi escrito por um grande amigo [o Dan Baron]. O poema original é em Inglês e a tradução foi feita pelo Dan especialmente para o livro em questão. É de uma poeta jamaicana, Elean Thomas, que casualmente faleceu uma semana antes dessa moça me perguntar sobre o tal poema. Não é africana, apesar de que Josue Yrion não sabe disso, mas indiretamente tem tudo a ver com a concepção deste blog: uma voz feminina, pós-colonial e diaspórica. Fora isso, é um poema que eu raramente consigo ler sem deixar escapar uma lagrimazinha de canto de olho. Mas sem deixar ninguém ver, lógico...
Ei-lo.

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Elean Thomas (1947-2007); Jamaica.
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Canção de amor de uma negra
[Black Woman's Love Song]

Eu te cantei canções de amor
enquanto eles nos jogaram
juntos
entre as baratas e os ratos
no porão do navio negreiro.

Eu te cantei canções de amor
quando naquele buraco fétido
eu te ajudei a ficar vivo
para enfrentar a luta no novo mundo.

Eu te cantei canções de amor
quando eles nos colocaram
à venda no leilão
e te levaram para o leste
me arrastando para o norte.

Eu te cantei canções de amor
entre os meus gritos
de dor
te implorando
Por favor nunca te esqueças de mim.

Eu te cantei canções de amor
quando eles me levaram
para ser sua concubina
e te levaram
para ser seu garanhão.

Eu te cantei canções de amor
até quando eu deixei
de ser a concubina deles
mas não pudeste deixar de ser
seu garanhão.

Eu te cantei canções de amor
quando a backra-massa ¹
nos jogou pra fora de nossas terras
pagas com nosso suor e sangue.

Eu te cantei canções de amor
quando tu disseste
"Se não podemos vencê-los
vamos nos unir a eles"
e ficaste com a backra-missus ².

Eu te cantei canções de amor
quando tivemos nossas cabeças
quebradas
juntos
nas demonstrações pelo direito
de falar, de fazer greve
de politizar
de organizar.

Eu te cantei canções de amor
quando tu choraste no meu peito
e eu esfreguei ervas medicinais
nos teus ferimentos
ambos
esquecendo
que os meus próprios intestinos estavam rasgados
e rasgados de feridas.

Eu te cantei canções de amor
quando pegamos em armas
contra o inimigo
para resgatar nossa dignidade.

Eu te cantei canções de amor
mesmo quando tu renegaste
o nosso filho
concebido com a tua semente apressada
disparada no meu útero
num dia de folga.

Eu te cantei canções de amor
depois da guerra
quando trabalhamos juntos
para reconstruir um povo inteiro
e um país livre.

Eu te cantei canções de amor
quando tu me disseste
que eu já não era esperta o suficiente
para freqüentar os jantares de Estado
para os quais tu já eras convidado.

Eu continuo te cantando
canções de amor
mesmo quando canções de ódio
ameaçam sufocar até a minha alma.

Eu te canto canções de amor
homem-negro
para que tu possas entender
que eu te quero
forte
do meu lado
me cantando canções de amor também.


In: BARON, Dan. Alfabetização cultural. São Paulo: Alfarrábio, 2004. (Tradução do autor)

Notas:
¹ O latifundiário na Jamaica.
² A esposa do latifundiário.

2 comentários:

Darlana Godoi disse...

Nossa Snadro, muito lindo este poema e os outros do Blog tb são muito interessantes, vou dar um curso sobre diversidade,racismo, sexismo e homofobia na semana de extensão, com certeza este texto vai ser bem util! Passei para minha tutora e ela amou também.

jack alexander disse...

Parabéns, uma das canções de lamento mais linda que ja vi,como poeta aprecio o que é bom a língua portuguesa da África me facina, quero conhecer mais da vossa cultura.
Obrigado